ENTARDECER - PARTE II
Erestor era um bom amigo. Mas daquele dia em diante Elrond passou a arrepender-se de ter dado ouvidos àquelas palavras. Se seu trabalho rendia a metade do normal desde a chegada da família de Celeborn, agora ele parecia viver seus dias apenas para devanear, sentado em sua cadeira. Nem em seus momentos de descanso conseguia impedir que certos pensamentos o perseguissem.
Erestor era um bom amigo. Mas daquele dia em diante Elrond passou a arrepender-se de ter dado ouvidos àquelas palavras. Se seu trabalho rendia a metade do normal desde a chegada da família de Celeborn, agora ele parecia viver seus dias apenas para devanear, sentado em sua cadeira. Nem em seus momentos de descanso conseguia impedir que certos pensamentos o perseguissem.
Por esse motivo, quase deu graças quando foi chamado
para resolver um pequeno problema estrutural que os arquitetos discutiam na
praça principal. Um deles parecia ver a necessidade de prolongar um telhado e
aproveitar assim a água da chuva para alguns moinhos locais, mas outro tinha
planos ligeiramente diferentes. Elrond apaziguou os ânimos como pôde, oferecendo
uma alternativa que agradava a ambos e saindo com os ecos daquele discussão
ainda ocupando-lhe a mente. Era quase um alívio ter algo diverso no qual pensar
que não aquele eterno olhar para si mesmo, enumerar os próprios defeitos,
buscar porquês e impossibilidades.
Foi quando se apercebeu do anoitecer. Elbereth,
iria encontrá-la. Aquela certeza o fez reduzir o passo, sem saber o que fazer.
Podia apenas tomar outro rumo, podia ir até as casas de cura verificar como
estavam os membros de uma caravana que chegara recentemente e haviam se ferido
em um acidente com uma das carroças, podia ir até o campo de treinos, podia...
podia desaparecer...
Mas seus temores foram engolidos de súbito por uma
imagem inesperada. Um banco estranhamente vazio. Elrond envergou o cenho,
consultando o céu acima. Era passada a hora dela estar ali.
Mas ela não veio. Nem naquele dia, nem nos dias que se
seguiram. Também não esteve na mesa de jantar em nenhuma das noites. Quando
indagado, Celeborn primeiro disse que a filha tivera um mal estar, depois que
ela encontrara um livro para ler que a estava entretendo, depois que estava se
dedicando a um trabalho manual que desejava terminar.
Em nenhuma das vezes viera de Elrond o questionamento.
Ele apenas acompanhava atentamente a resposta. Oferecendo um eu lamento,
no primeiro dia e um mero arcar de sobrancelhas nos seguintes. Seu coração, no
entanto começava a sentir aquela ausência mais do que gostaria de admitir. E a
cadeira vazia ao lado de Galadriel passou a visitar seus pesadelos. Um dia
Celeborn voltaria a Lothlórien ou tomaria outro rumo qualquer, ele conhecia bem
o lorde de cabelos prateados e sabia que nem a ele, nem a sua esposa agradavam
permanecer em papéis coadjuvantes por tempo extremo em um mesmo lugar.
Foi então que aquela cadeira vazia passou a simbolizar
algo que até o momento não lhe ocorrera, que um dia ela poderia estar vazia
definitivamente. E a Elrond ocorreu que na verdade ele não passara seus dias
tentando esquecer Celebrian, ele os passara esperando por um acontecimento,
esperando por um evento extraordinário, esperando por ela...
Por isso, no dia seguinte, ele viu-se cansado de
esperar. No entanto, melhor do que ninguém, ele sabia por onde deveria começar
sua busca, por onde deveria tentar começar sua conquista, se desejava
descobrir-se de fato merecedor dela.
Quando Celeborn abriu a porta de seu quarto em
Imladris, não parecia haver em seus olhos qualquer surpresa.
“Elrond.” Ele fez uma breve reverência.
“Celeborn.” Elrond repetiu o cumprimento, apoiando a
mão por sobre o peito. “Peço sua compreensão por procurá-lo em seus aposentos.
Gostaria que me cedesse um instante de seu tempo, se fosse possível.”
A figura de Galadriel surgiu também à porta, atraída
pelo tom que o anfitrião inutilmente tentara disfarçar. As sobrancelhas da alta
e bela elfa estavam envergadas.
“Desejam estar a sós?” Ela indagou, olhando
alternadamente para os dois elfos. Celeborn deixou a questão no ar, sabendo que
não cabia a ele respondê-la.
“Na verdade é um assunto para o qual sua opinião seria
de extrema importância.” Elrond informou, fazendo com que o semblante intrigado
da elfa se agravasse mais. Ela deu imediatamente um passo para trás e Celeborn
viu ali a deixa que lhe faltava para abrir mais a porta e mover o braço em um
convite para o amigo.
Elrond entrou, já seguindo a direção para a qual
Galadriel agora o conduzia. Ela indicou-lhe uma poltrona em uma pequena
antessala e ele esperou que a senhora acomodasse a si mesma em um divã à frente
antes de fazer o mesmo. Celeborn achegou-se então com uma taça de vinho a qual
Elrond aceitou por cortesia, molhando apenas os lábios, mas abandonando-a na
pequena mesa ao lado sem mais tocá-la.
“Conheço-o há quanto tempo, Elrond?” O lorde de
cabelos prateados iniciou rapidamente a conversa, parecendo compartilhar a
preocupação da esposa.
“Não sei se conseguiria ao certo estipular.” O curador
respondeu, encostado ligeiramente no estofado, mas mantendo o corpo ereto. Os
olhos estavam em uma janela entreaberta do canto.
“Penso que o suficiente para saber quando está as
voltas com um problema de difícil solução.” Colocou então o outro.
“Sim... Por certo...” Elrond apenas disse, antes de
encher o peito e voltar a olhar para o casal. “Estou de fato em um impasse em
minha vida e para resolvê-lo preciso da opinião sincera de vocês, com a qual
sempre pude contar.”
“Como agora o pode.” Galadriel acrescentou, seu olhar
ainda bastante intrigado. Por vezes aquele casal tinha, separada ou
conjuntamente, sensações de futuro que lhe oferecia vantagens em situações
extremas. O fato de a nenhum dos dois estar ocorrendo o que parecia roubar a
serenidade de alguém tão ponderado quanto o lorde de Imladris incomodava demais
a poderosa elfa loura.
E era para ela que Elrond agora olhava. Conhecia
Celeborn bastante bem. Conhecia seus princípios, suas virtudes, conhecia suas
posições, suas verdades, mas não conhecia Galadriel, pelo menos não tão bem
quanto gostaria naquele momento.
“Preciso saber, minha senhora Galadriel.” Ele disse
formalmente. “O que pensa de mim?”
A elfa então sentiu pesar-lhe ainda mais a gravidade
da situação, mesmo sem compreendê-la completamente.
“O que penso a seu respeito em que sentido, Elrond?”
Ela indagou, seu rosto ainda intrigado.
“Em todos os sentidos, senhora. Em todos os sentidos
nos quais esteja disposta a me classificar e condenar se necessário.”
Dessa vez Galadriel buscou o olhar do esposo e
Celeborn sentiu um arrepio. Ela o chamava de “o sábio”, exatamente porque eram
de extrema raridade os momentos em que seu parecer se fazia necessário, o
momento em que a poderosa filha de Finarfin precisava que alguém a ajudasse a
compreender algo.
“Diga-nos o que se passa, Elrond.” O elfo tentou mudar
o rumo daquela conversa então, em busca de um caminho no qual se sentisse mais
seguro.
O elfo moreno respirou profundamente, estava em busca
das palavras corretas agora, pois sabia que o momento assim lhe exigia. Estava
em uma busca novamente por algo que parecia escapar-lhe por entre os dedos.
“Apenas diga, mellon-nín.” Celeborn buscou
ajudá-lo ao sentir sua angústia.
Apenas diga. Apenas diga. Apenas diga...
Foi a nova frase a ecoar em sua mente.
“Desejo saber se me consideram digno o bastante.”
“Digno o bastante?” Foi Celeborn agora a mostrar um ar
intrigado que raras vezes exibia.
“Digno para...” Galadriel colocou em tom
interrogativo.
“Digno para cortejar sua filha.” Elrond disse então e
em sua vida jamais se sentiu em uma situação como aquela. Manter-se ereto e
firme naquele momento foi para ele quase tão difícil quanto enfrentar a
primeira grande batalha de sua vida. Celeborn ficou mudo por um instante, mas
Elrond teve a oportunidade de ver o elfo de cabelos prateados empalidecer pela
primeira vez. Ao lado dele, a esposa não exibia um semblante muito diferente.
“Ela... disse-lhe algo?” O elfo indagou, mas Elrond percebeu
que Celeborn o fazia apenas para conseguir para si mesmo tempo de reorganizar
as ideias.
“Não. Ela não sabe de minhas intenções ou sentimentos
e assim continuará a ser se for da vontade de seus pais.”
Galadriel respirou fundo com aquele comentário.
“Ama-a, Perendhel?” Ela indagou e Elrond se viu
chamado por um nome que há muito ele mesmo não usara. Meio-elfo... Sim,
era como o chamavam... era como ele chamava a si mesmo. O curador, mesmo
sentindo a ligeira advertência no questionamento da elfa, procurou manter-se
como estava.
“Pouco sei sobre tal sentimento, minha senhora. Mas a
imagem de sua filha ocupa minha mente e meu coração, alertando-me para um vazio
dentro de mim que até então não me incomodava. Sua ausência nos últimos dias só
fez com que tal vazio se intensificasse.”
Galadriel moveu o rosto ligeiramente, fazendo com que
seu olhar caísse sobre a figura do curador através dos cantos dos olhos. Seu
semblante estava altivo, seus lábios apertados, o queixo endurecido. Ela não
parecia de todo satisfeita com a resposta recebida.
“Se esse é seu sentimento, mesmo assim acataria nossa
decisão sem qualquer discussão?”
“Sim.” Elrond respondeu ainda imóvel e Galadriel
soltou rapidamente o ar pelo nariz, sem nem mesmo desprender os lábios. Ela
estava de fato insatisfeita.
“Como pode amá-la e deixar uma decisão dessas em
nossas mãos?”
“É assim que deve ser feito.”
“Se Beren assim o tivesse feito você não estaria aqui,
seu tolo.”
Elrond encheu o peito então e pela primeira vez o
casal viu um brilho diverso em seus olhos.
“Beren fez o que julgava ser o correto.” Ele respondeu
enfim. “Bem como eu. Agimos calcados em nossos princípios, contando com a
compreensão dos que nos são caros e com a ajuda do criador se essa compreensão
não se efetivar.”
A resposta amoleceu ligeiramente o queixo da elfa e
Elrond chegou a julgar vê-la conter um pequeno sorriso. No entanto, logo o
rosto dela readquiria o ar austero, mas ela desviava o olhar enfim do dele,
encontrando o do esposo. O casal se olhou por um tempo e Elrond percebeu que
trocavam pequenas informações. Depois disso Galadriel encostou-se um pouco e o
curador sentiu que ela deixava enfim a decisão para o marido, ou pelo menos a
revelação dela.
Celeborn respirou profundamente, antes de reerguer os
olhos para o amigo moreno.
“Sei que os laços de sua ancestralidade híbrida são o
que o traz aqui e sei também que tem consciência de que esse é o único
empecilho que vemos nessa relação, haja vista que você está entre os melhores e
mais bravos e nobres guerreiros com quem tive o prazer de brandir minhas
armas.”
Elrond baixou os olhos pela primeira vez.
“Essa é a resposta?” Ele indagou.
“Não, Elrond.” O elfo disse com seriedade. “Não há
resposta definitiva para essa questão que possa ser dada por nós, pois não nos
cabe tal decisão.”
“Celebrian tem total conhecimentos de sua história.”
Galadriel acrescentou. “Na verdade, nos últimos anos, você parece ter sido foco
de seus estudos e atenção por mais tempo do que eu gostaria que tivesse sido.”
Ela revelou então, apertando novamente os lábios ao perceber o ar surpreso do
lorde elfo. “Ela sabe que filhos você poderá dar a ela, Perendhel. Ela
sabe que destino poderão ter tais crianças. Ela sabe bem a que poderia levar
tal relação. Acho que acaba aí nossa parte, nossa obrigação. Demos a ela todo o
conhecimento que necessitava ter, assim que notamos haver nela algum interesse
em sua pessoa. Resta-nos aguardar para ver que uso ela dará ao conhecimento
adquirido.”
Elrond tornou a baixar os olhos. Aquele comentário já
não parecia de todo motivador.
“O que não julgávamos, fosse que o interesse pudesse
vir a ser mútuo.” Celeborn disse então, ganhando novamente o olhar do curador.
“Essa informação o destino não nos revelou.”
Elrond continuou olhando o casal por mais um instante,
mas nada mais lhe ocorria a dizer. Nem as certezas que o haviam trazido ali
pareciam tão sólidas quanto estavam antes, mesmo diante de algumas importantes
descobertas. Talvez... Talvez ela sentisse algo por ele... Talvez... Talvez o
amasse ou pelo menos julgasse que sim... Talvez... Talvez ele pudesse fazê-la
feliz... Talvez... Talvez...
Elbereth, viera
até ali em busca de suas últimas respostas e sairia repleto de outras
dúvidas... Foi o que pensou, antes de perceber-se analisado ainda pelo casal de
hóspedes. Naquele momento ele se sentiu indisposto a imaginar o que os antigos
conhecidos estariam pensando dele, sentiu-se indisposto a imaginar o que
esperavam dele... Dele... o meio-elfo que almejava a mão da filha deles.
Elrond se ergueu então, praticamente impulsionado por um
sentimento de dúvidas e remorso que não se lembrava de ter sentido antes. Com
um breve e polido pedido de licença ele se afastou, sem nem mesmo receber a
confirmação deste. Celeborn alcançou-o à porta a tempo de segurá-lo por um dos
braços.
“Não pense que não temos afeto por você, Elrond.” Ele
disse, quando os dois voltaram a se olhar.
“Eu sei. Eu sei, Celeborn.” O curador respondeu, já
puxando ligeiramente o braço para poder sair daquele lugar, mas o lorde louro
não se contentou com aquela resposta, virando o amigo e segurando-o pelos
braços para que pudesse olhá-lo nos olhos. Atrás dele Galadriel acompanhava a
cena.
“E não pense que o poder dessa decisão é só seu,
Elrond.” Foi ela quem observou. “Se deseja de fato que a justiça seja feita, vá
até o jardim dos fundos da casa. É nele que Celebrian tem passado grande parte
dos dias.”
“Você nos demonstrou respeito tamanho e por isso somos
gratos.” Celeborn adicionou. “Mostre a ela a mesma consideração.”