segunda-feira, 14 de agosto de 2017

ENTARDECER - PARTE II

Erestor era um bom amigo. Mas daquele dia em diante Elrond passou a arrepender-se de ter dado ouvidos àquelas palavras. Se seu trabalho rendia a metade do normal desde a chegada da família de Celeborn, agora ele parecia viver seus dias apenas para devanear, sentado em sua cadeira. Nem em seus momentos de descanso conseguia impedir que certos pensamentos o perseguissem.
Por esse motivo, quase deu graças quando foi chamado para resolver um pequeno problema estrutural que os arquitetos discutiam na praça principal. Um deles parecia ver a necessidade de prolongar um telhado e aproveitar assim a água da chuva para alguns moinhos locais, mas outro tinha planos ligeiramente diferentes. Elrond apaziguou os ânimos como pôde, oferecendo uma alternativa que agradava a ambos e saindo com os ecos daquele discussão ainda ocupando-lhe a mente. Era quase um alívio ter algo diverso no qual pensar que não aquele eterno olhar para si mesmo, enumerar os próprios defeitos, buscar porquês e impossibilidades.
Foi quando se apercebeu do anoitecer. Elbereth, iria encontrá-la. Aquela certeza o fez reduzir o passo, sem saber o que fazer. Podia apenas tomar outro rumo, podia ir até as casas de cura verificar como estavam os membros de uma caravana que chegara recentemente e haviam se ferido em um acidente com uma das carroças, podia ir até o campo de treinos, podia... podia desaparecer...
Mas seus temores foram engolidos de súbito por uma imagem inesperada. Um banco estranhamente vazio. Elrond envergou o cenho, consultando o céu acima. Era passada a hora dela estar ali.
Mas ela não veio. Nem naquele dia, nem nos dias que se seguiram. Também não esteve na mesa de jantar em nenhuma das noites. Quando indagado, Celeborn primeiro disse que a filha tivera um mal estar, depois que ela encontrara um livro para ler que a estava entretendo, depois que estava se dedicando a um trabalho manual que desejava terminar.
Em nenhuma das vezes viera de Elrond o questionamento. Ele apenas acompanhava atentamente a resposta. Oferecendo um eu lamento, no primeiro dia e um mero arcar de sobrancelhas nos seguintes. Seu coração, no entanto começava a sentir aquela ausência mais do que gostaria de admitir. E a cadeira vazia ao lado de Galadriel passou a visitar seus pesadelos. Um dia Celeborn voltaria a Lothlórien ou tomaria outro rumo qualquer, ele conhecia bem o lorde de cabelos prateados e sabia que nem a ele, nem a sua esposa agradavam permanecer em papéis coadjuvantes por tempo extremo em um mesmo lugar.
Foi então que aquela cadeira vazia passou a simbolizar algo que até o momento não lhe ocorrera, que um dia ela poderia estar vazia definitivamente. E a Elrond ocorreu que na verdade ele não passara seus dias tentando esquecer Celebrian, ele os passara esperando por um acontecimento, esperando por um evento extraordinário, esperando por ela...
Por isso, no dia seguinte, ele viu-se cansado de esperar. No entanto, melhor do que ninguém, ele sabia por onde deveria começar sua busca, por onde deveria tentar começar sua conquista, se desejava descobrir-se de fato merecedor dela.
Quando Celeborn abriu a porta de seu quarto em Imladris, não parecia haver em seus olhos qualquer surpresa.
“Elrond.” Ele fez uma breve reverência.
“Celeborn.” Elrond repetiu o cumprimento, apoiando a mão por sobre o peito. “Peço sua compreensão por procurá-lo em seus aposentos. Gostaria que me cedesse um instante de seu tempo, se fosse possível.”
A figura de Galadriel surgiu também à porta, atraída pelo tom que o anfitrião inutilmente tentara disfarçar. As sobrancelhas da alta e bela elfa estavam envergadas.
“Desejam estar a sós?” Ela indagou, olhando alternadamente para os dois elfos. Celeborn deixou a questão no ar, sabendo que não cabia a ele respondê-la.
“Na verdade é um assunto para o qual sua opinião seria de extrema importância.” Elrond informou, fazendo com que o semblante intrigado da elfa se agravasse mais. Ela deu imediatamente um passo para trás e Celeborn viu ali a deixa que lhe faltava para abrir mais a porta e mover o braço em um convite para o amigo.
Elrond entrou, já seguindo a direção para a qual Galadriel agora o conduzia. Ela indicou-lhe uma poltrona em uma pequena antessala e ele esperou que a senhora acomodasse a si mesma em um divã à frente antes de fazer o mesmo. Celeborn achegou-se então com uma taça de vinho a qual Elrond aceitou por cortesia, molhando apenas os lábios, mas abandonando-a na pequena mesa ao lado sem mais tocá-la.
“Conheço-o há quanto tempo, Elrond?” O lorde de cabelos prateados iniciou rapidamente a conversa, parecendo compartilhar a preocupação da esposa.
“Não sei se conseguiria ao certo estipular.” O curador respondeu, encostado ligeiramente no estofado, mas mantendo o corpo ereto. Os olhos estavam em uma janela entreaberta do canto.
“Penso que o suficiente para saber quando está as voltas com um problema de difícil solução.” Colocou então o outro.
“Sim... Por certo...” Elrond apenas disse, antes de encher o peito e voltar a olhar para o casal. “Estou de fato em um impasse em minha vida e para resolvê-lo preciso da opinião sincera de vocês, com a qual sempre pude contar.”
“Como agora o pode.” Galadriel acrescentou, seu olhar ainda bastante intrigado. Por vezes aquele casal tinha, separada ou conjuntamente, sensações de futuro que lhe oferecia vantagens em situações extremas. O fato de a nenhum dos dois estar ocorrendo o que parecia roubar a serenidade de alguém tão ponderado quanto o lorde de Imladris incomodava demais a poderosa elfa loura.
E era para ela que Elrond agora olhava. Conhecia Celeborn bastante bem. Conhecia seus princípios, suas virtudes, conhecia suas posições, suas verdades, mas não conhecia Galadriel, pelo menos não tão bem quanto gostaria naquele momento.
“Preciso saber, minha senhora Galadriel.” Ele disse formalmente. “O que pensa de mim?”
A elfa então sentiu pesar-lhe ainda mais a gravidade da situação, mesmo sem compreendê-la completamente.
“O que penso a seu respeito em que sentido, Elrond?” Ela indagou, seu rosto ainda intrigado.
“Em todos os sentidos, senhora. Em todos os sentidos nos quais esteja disposta a me classificar e condenar se necessário.”
Dessa vez Galadriel buscou o olhar do esposo e Celeborn sentiu um arrepio. Ela o chamava de “o sábio”, exatamente porque eram de extrema raridade os momentos em que seu parecer se fazia necessário, o momento em que a poderosa filha de Finarfin precisava que alguém a ajudasse a compreender algo.
“Diga-nos o que se passa, Elrond.” O elfo tentou mudar o rumo daquela conversa então, em busca de um caminho no qual se sentisse mais seguro.
O elfo moreno respirou profundamente, estava em busca das palavras corretas agora, pois sabia que o momento assim lhe exigia. Estava em uma busca novamente por algo que parecia escapar-lhe por entre os dedos.
“Apenas diga, mellon-nín.” Celeborn buscou ajudá-lo ao sentir sua angústia.
Apenas diga. Apenas diga. Apenas diga...
Foi a nova frase a ecoar em sua mente.
“Desejo saber se me consideram digno o bastante.”
“Digno o bastante?” Foi Celeborn agora a mostrar um ar intrigado que raras vezes exibia.
“Digno para...” Galadriel colocou em tom interrogativo.
“Digno para cortejar sua filha.” Elrond disse então e em sua vida jamais se sentiu em uma situação como aquela. Manter-se ereto e firme naquele momento foi para ele quase tão difícil quanto enfrentar a primeira grande batalha de sua vida. Celeborn ficou mudo por um instante, mas Elrond teve a oportunidade de ver o elfo de cabelos prateados empalidecer pela primeira vez. Ao lado dele, a esposa não exibia um semblante muito diferente.
“Ela... disse-lhe algo?” O elfo indagou, mas Elrond percebeu que Celeborn o fazia apenas para conseguir para si mesmo tempo de reorganizar as ideias.
“Não. Ela não sabe de minhas intenções ou sentimentos e assim continuará a ser se for da vontade de seus pais.”
Galadriel respirou fundo com aquele comentário.
“Ama-a, Perendhel?” Ela indagou e Elrond se viu chamado por um nome que há muito ele mesmo não usara. Meio-elfo... Sim, era como o chamavam... era como ele chamava a si mesmo. O curador, mesmo sentindo a ligeira advertência no questionamento da elfa, procurou manter-se como estava.
“Pouco sei sobre tal sentimento, minha senhora. Mas a imagem de sua filha ocupa minha mente e meu coração, alertando-me para um vazio dentro de mim que até então não me incomodava. Sua ausência nos últimos dias só fez com que tal vazio se intensificasse.”
Galadriel moveu o rosto ligeiramente, fazendo com que seu olhar caísse sobre a figura do curador através dos cantos dos olhos. Seu semblante estava altivo, seus lábios apertados, o queixo endurecido. Ela não parecia de todo satisfeita com a resposta recebida.
“Se esse é seu sentimento, mesmo assim acataria nossa decisão sem qualquer discussão?”
“Sim.” Elrond respondeu ainda imóvel e Galadriel soltou rapidamente o ar pelo nariz, sem nem mesmo desprender os lábios. Ela estava de fato insatisfeita.
“Como pode amá-la e deixar uma decisão dessas em nossas mãos?”
“É assim que deve ser feito.”
“Se Beren assim o tivesse feito você não estaria aqui, seu tolo.”
Elrond encheu o peito então e pela primeira vez o casal viu um brilho diverso em seus olhos.
“Beren fez o que julgava ser o correto.” Ele respondeu enfim. “Bem como eu. Agimos calcados em nossos princípios, contando com a compreensão dos que nos são caros e com a ajuda do criador se essa compreensão não se efetivar.”
A resposta amoleceu ligeiramente o queixo da elfa e Elrond chegou a julgar vê-la conter um pequeno sorriso. No entanto, logo o rosto dela readquiria o ar austero, mas ela desviava o olhar enfim do dele, encontrando o do esposo. O casal se olhou por um tempo e Elrond percebeu que trocavam pequenas informações. Depois disso Galadriel encostou-se um pouco e o curador sentiu que ela deixava enfim a decisão para o marido, ou pelo menos a revelação dela.
Celeborn respirou profundamente, antes de reerguer os olhos para o amigo moreno.
“Sei que os laços de sua ancestralidade híbrida são o que o traz aqui e sei também que tem consciência de que esse é o único empecilho que vemos nessa relação, haja vista que você está entre os melhores e mais bravos e nobres guerreiros com quem tive o prazer de brandir minhas armas.”
Elrond baixou os olhos pela primeira vez.
“Essa é a resposta?” Ele indagou.
“Não, Elrond.” O elfo disse com seriedade. “Não há resposta definitiva para essa questão que possa ser dada por nós, pois não nos cabe tal decisão.”
“Celebrian tem total conhecimentos de sua história.” Galadriel acrescentou. “Na verdade, nos últimos anos, você parece ter sido foco de seus estudos e atenção por mais tempo do que eu gostaria que tivesse sido.” Ela revelou então, apertando novamente os lábios ao perceber o ar surpreso do lorde elfo. “Ela sabe que filhos você poderá dar a ela, Perendhel. Ela sabe que destino poderão ter tais crianças. Ela sabe bem a que poderia levar tal relação. Acho que acaba aí nossa parte, nossa obrigação. Demos a ela todo o conhecimento que necessitava ter, assim que notamos haver nela algum interesse em sua pessoa. Resta-nos aguardar para ver que uso ela dará ao conhecimento adquirido.”
Elrond tornou a baixar os olhos. Aquele comentário já não parecia de todo motivador.
“O que não julgávamos, fosse que o interesse pudesse vir a ser mútuo.” Celeborn disse então, ganhando novamente o olhar do curador. “Essa informação o destino não nos revelou.”
Elrond continuou olhando o casal por mais um instante, mas nada mais lhe ocorria a dizer. Nem as certezas que o haviam trazido ali pareciam tão sólidas quanto estavam antes, mesmo diante de algumas importantes descobertas. Talvez... Talvez ela sentisse algo por ele... Talvez... Talvez o amasse ou pelo menos julgasse que sim... Talvez... Talvez ele pudesse fazê-la feliz... Talvez... Talvez...
Elbereth, viera até ali em busca de suas últimas respostas e sairia repleto de outras dúvidas... Foi o que pensou, antes de perceber-se analisado ainda pelo casal de hóspedes. Naquele momento ele se sentiu indisposto a imaginar o que os antigos conhecidos estariam pensando dele, sentiu-se indisposto a imaginar o que esperavam dele... Dele... o meio-elfo que almejava a mão da filha deles.
Elrond se ergueu então, praticamente impulsionado por um sentimento de dúvidas e remorso que não se lembrava de ter sentido antes. Com um breve e polido pedido de licença ele se afastou, sem nem mesmo receber a confirmação deste. Celeborn alcançou-o à porta a tempo de segurá-lo por um dos braços.
“Não pense que não temos afeto por você, Elrond.” Ele disse, quando os dois voltaram a se olhar.
“Eu sei. Eu sei, Celeborn.” O curador respondeu, já puxando ligeiramente o braço para poder sair daquele lugar, mas o lorde louro não se contentou com aquela resposta, virando o amigo e segurando-o pelos braços para que pudesse olhá-lo nos olhos. Atrás dele Galadriel acompanhava a cena.
“E não pense que o poder dessa decisão é só seu, Elrond.” Foi ela quem observou. “Se deseja de fato que a justiça seja feita, vá até o jardim dos fundos da casa. É nele que Celebrian tem passado grande parte dos dias.”

“Você nos demonstrou respeito tamanho e por isso somos gratos.” Celeborn adicionou. “Mostre a ela a mesma consideração.”

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012


E N T A R D E C E R


Somente quando encontramos o amor, é que descobrimos o que nos faltava na vida.”
                                                             John Ruskin



APRESENTAÇÃO

Categoria: Lord of the Rings
Autora: Sadie Sil
Revisoras: Alastegiel - Myriara
Gênero: Romance
Censura: T
Linha temporal: Primeiros anos da Terceira Era.
Disclaimer: Não possuo os personagens, apenas peguei emprestados, devotando-lhes mais amor do que seria sensato. Agora acho que são um pouco meus. Mas o Professor, com seu bondoso coração, com certeza não se importará em reparti-los.
Sinopse: Depois de muito tempo de espera, Elrond e Celebrian encontram a possibilidade de começarem uma vida a dois.
Comentários: Esse texto foi uma proposta para o Desafio de final de ano do TOLKIEN GROUP: Escrever uma short fic com pelo menos um personagem do professor. Espero que gostem.



Até para elfos puros, quase dois milhares de anos era tempo demais.

Era o que pensava o senhor de Valfenda, cujos olhos estavam fixos na imagem que viam da janela de seu gabinete. Por mais vezes do que seria sensato, ele deixara-se levar naquele curto caminho de sua cadeira até aquela janela lateral que dava para o jardim. Desde a chegada de Celeborn e Galadriel aqueles momentos de fim de tarde se converteram em uma estranha vigília. Os pássaros começavam a anunciar o anoitecer e ele automaticamente abandonava seus papéis, independente da urgência que tivessem e se quedava ali, calado, diante daquela vidraça.

Fazia-o pelo mais inesperado e inexplicável motivo.

Fazia-o apenas porque sabia que ela viria acompanhar o entardecer.

Na primeira vez que a vira, em meio a uma tumultuada época de confrontos e perdas, não ousara sequer olhá-la por tempo demais. A elfa era apenas mais um dos membros da comitiva que a mãe conduzia pelas poucas terras seguras para reencontrar o marido. Celeborn liderara um exército contra forças invasoras e o próprio Elrond acabara por levar um contingente em seu auxílio. Nem assim, contudo, a queda de Eregion pôde ser evitada ou a morte de um dos mais nobres dos artesãos élficos, Celebrimbor, impedida.

Não. Aquela época não fora propícia para outros pensamentos que não o posicionamento correto de armas e soldados e o imediato dia de amanhã... Não. Naqueles dias ele nem se atrevera a pensar em amor.

E eles se foram, a família novamente reunida entre o restante dos que a seguiam. E Elrond não mais a viu, guardando, no entanto, a lembrança de um par de olhos claros que, já distantes, ousaram fazer seu brilho escapar do manto escuro que os guardava e oferecerem-lhe algo além de uma simples lembrança. Algo que, indisciplinadamente, seu coração insistia em denominar esperança.

Desde então jamais trocaram palavras além de meros cumprimentos, nas diferentes, mas raras, ocasiões em que o destino os aproximou e muito pouco se viram. Por isso quando chegou à Imladris a mensagem de Celeborn comunicando-o de sua chegada com a família e sua intenção de permanecer, se possível fosse, por tempo indeterminado, Elrond viu-se novamente perdido em pensamentos que escaparam de imediato do lugar onde os havia abrigado.

E o que eram apenas conjeturas, dúvidas sobre como seria o reencontro, transformou-se em uma inegável certeza assim que seus olhos pousaram, ainda que rapidamente, na figura da donzela de Lórinand, daquela a quem, em seus pensamentos mais desenfreados, ele gostaria de intitular Senhora de Imladris, já que senhora de seu coração ela já passara a ser desde a primeira vez que a vira.

Estavam no início de uma nova Era e, apesar de todos os pormenores, havia no ar a incontida expectativa de que tempos melhores os abraçariam. As árvores ganhavam seu mais marcante tom de verde, as flores custavam a murchar e o sorriso dos habitantes da cidade quase nunca os abandonava.

Elrond fechou os olhos um instante, enfrentando o que julgava ser o maior conflito que já vivera em sua vida. Jamais se apaixonara, jamais se deixara levar. Toda a sua existência fora permeada por perdas tamanhas que seu coração recusava-se a ceder a qualquer sentimento mais permanente do que o de proteger ao seu povo, cuidar do que o horizonte lhes reservava, esperar pelo pior... sempre...

Aqueles pensamentos o perseguiam agora. Há tempos não questionava mais suas origens, suas escolhas, seu papel na história, mas diante daquela perspectiva, daquela possibilidade ainda que remota a extremo, via-se em um impasse do qual nem sabia ao certo como sair.

Havia muitas dúvidas no ar. Dúvidas que o levavam a querer ouvir aquela voz da razão que sempre fora sua guia e conselheira.

Não. Não. Não. Ela lhe dizia. Deixe-a seguir seu rumo, não tente atá-la ao seu, mesmo que seja do desejo dela. Deixe-a tentar buscar a felicidade em outro local que não aquele território tão duramente marcado, na companhia de outro alguém que não aquele elfo a quem o destino parecia sempre reservar as mais diversas provações.

Elrond balançou o rosto, afastando todos aqueles pensamentos. Aquilo era tolice. Aquilo...
E seus pensamentos enfim foram calados, não pela voz firme de sua consciência, mas sim pelo descompassado som de seu coração. Seus olhos agora acompanhavam o oscilar de um vestido esverdeado, o agitar brando de cabelos dourados. Ela sempre fazia o mesmo caminho, cruzando o jardim, tomando um mesmo banco e lá ficando até que os serviçais começassem a acender as lamparinas. Certas vezes alguns se aproximavam para conversar com ela, certas vezes a mãe mesmo a acompanhava, mas na maioria das vezes, como naquele dia, ela ficava sozinha, a contemplar os últimos raios e as primeiras estrelas.

As primeiras estrelas...

“Estrela... Estrela minha.” Ele se viu brincando com aquelas palavras como se fosse um elfinho aprendendo o significado de um idioma estrangeiro. E por um instante a elfa ergueu os olhos como se parecesse tê-lo ouvido e só não o encontrou a observá-la porque ele fora bastante rápido.

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O tempo passou e Elrond conseguiu, pouco a pouco, voltar a ocupar sua mente com o que estava ao seu alcance e à sua guarda. E a imagem da bela filha do casal da antiga Eregion conseguia apenas tomar-lhe a mente quando o curador estava por demais distraído de seus afazeres. Ocupavam a mesma mesa no jantar, mas Elrond sequer olhava para ela além do necessário para o breve cumprimento. A princípio ele chegou a sentir o olhar dela buscar pelo dele algumas vezes, mas por fim a frieza de sua atuação acabou por ser espelhada pela hóspede também.

Aquilo era loucura. Melhor que terminasse assim, sem ao menos ter começado. Afinal mal haviam conversado nesses anos todos, podia estar nutrindo, em seu coração solitário, uma ilusão que não traria bem algum a nenhum deles.

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Cruzava agora apressadamente o pátio. Uma patrulha acidentara-se na floresta e ele havia ido averiguar a gravidade dos ferimentos do capitão. Uma vez satisfeito com a compreensão dos fatos e com a certeza de recuperação de seus soldados, ele voltava a passo rápido para dentro da casa maior. Estava ainda recuperando-se da sensação desagradável que o incidente lhe trouxera, havia tão poucos momentos de paz que chegara a julgar algo pior quando ouvira a notícia.

Enquanto caminhava a seu rumo, porém, seus olhos se deslocaram, seguindo a imagem de uma pequena lebre que cruzou arriscadamente o pátio, indo desaparecer em um punhado de emaranhado verde que se desenvolvera desafiador ao lado de um dos bancos principais do jardim. Ele até sorriria da manobra rápida do animal, se não encontrasse sentada ali, como continuava a fazer todos os dias, alguém que jamais perderia seu brilho, por mais apagada que estivessem as estrelas pelo céu carregado acima.

“Lorde Elrond.” A filha de Galadriel moveu a cabeça em um cumprimento formal e Elrond estagnou completamente o passo, vendo-se em um impasse diplomático. Não podia simplesmente continuar sem ao menos dar à hóspede um pouco de atenção.

Sim. Era seu dever como bom anfitrião. Dever esse que, pela primeira vez, proporcionou-lhe uma sensação de frio repentino em plena primavera.

E algo além disso...

“Milady.” Elrond tranquilizou ao menos os traços e tremores de seu rosto, haja vista que o enlouquecido coração já deixara de obedecê-lo há tempos. “Apreciando o jardim?” Ele indagou, sem se aproximar.

O rosto da jovem elfa iluminou-se de uma forma que ele ainda não havia visto, como se estivesse mesmo satisfeita com o encontro. Poderia de fato estar? Poderia ele de fato supor isso? Seria correto?

“O senhor tem aqui o mais belo jardim que já vi.” Ela disse, erguendo-se e aproximando-se devagar. “Os jardineiros me disseram que o senhor recebe toda a espécie de flores e ornamentos das mais diversas regiões da Terra-média.”

Elrond respirou fundo, colocando um sorriso sutil nos lábios.

“Sou um curador, milady.” Ele procurou enfraquecer aquele traço de virtude que parecia ser de extrema importância para a elfa. Embora amasse de fato aquele jardim colorido, não queria vê-la iludida por uma interpretação exagerada de seu afeto pelas obras de Yavanna.

A elfa soltou os ombros levemente, mas seus olhos azuis não deixaram de observá-lo. Elrond permitiu-se aquele contato o qual vinha evitando durante tanto tempo. Agora percebia que precisava dele, que precisava saber como se sentiria, que precisava apagar as últimas chamas de ilusão e sentir o que a realidade colocaria no lugar delas.

Mas então, Celebrian lhe sorriu e ele sentiu pela primeira vez que a realidade poderia ter o mesmo sabor das melhores ilusões.

“Há flores diversas de onde viemos.” Ela lhe disse com moderado entusiasmo. “Eu as estudei fervorosamente e conheço-as bem. Existe alguma pela qual o senhor esteja buscando para que seu jardim fique completo?”

Elrond continuou olhando para a elfa, como se apenas a voz dela houvesse embalado seu espírito, só agora percebia que a sensação desaparecera, que seu coração voltava ao compasso apropriado, trazendo-lhe de volta a sensação de segurança que ele julgava perdida e pela qual vinha ansiando desde que reencontrara aquela elfa novamente. Apenas algo de extrema importância não mudara...

“Creio que meu jardim nunca esteve mais belo...” Ele se viu dizendo e nem se apercebeu que o momento necessário a dedicar-se a olhar para sua visitante durante aquela resposta havia passado. Ele continuou olhando-a mesmo assim, até que a percebeu enrubescer e baixar os olhos. Só então notou sua atitude e se alguma vez desconcertara-se antes não se lembrava de ter sido de forma pior do que aquela. “Peço desculpas, milady.” Ele disse, controlando o tom de embaraço de sua voz. “Com sua licença.”

E sem esperar qualquer consentimento o lorde de Imladris começou a se afastar, já ouvindo sua consciência ralhar-lhe com os piores adjetivos. Tantos anos de experiência e ele percebia que definitivamente não sabia como lidar com uma situação como aquela.

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E daquele dia em diante lá estava ele novamente em frente daquela janela, naquele mesmo instante do dia.
“Então,” Dizia Erestor que ocupava o mesmo gabinete naquela tarde, mostrando ao amigo alguns pergaminhos que haviam chegado e cuja caligrafia lhe parecia conhecida, mesmo num idioma já em total desuso. “Penso que o melhor seria darmos fim nesse lixo todo, talvez as forjas estejam precisando de matéria prima para as fornalhas. O que acha?”

Elrond apenas assentiu displicente, os olhos presos no que nos últimos dias estava lhe importando mais do que todas as bibliotecas daquela terra ou de qualquer outra. Custaram ainda alguns instantes de prudente silêncio do conselheiro para que a própria consciência do curador repetisse devagar a frase que acabara de ouvir. Quando Elrond virou-se intrigado para o amigo ainda sentado diante dos papéis antigos, encontrou-o com um olhar que não o agradou.

“O que disse que faria com o material, Erestor?” Ele indagou mesmo assim, mas o sorriso e a nova provocação e brincadeira que aguardava do conselheiro foram substituídas por um semblante bastante preocupado. Erestor ergueu-se então se aproximando também da janela e colocando-se ao lado do amigo.
“Sabia que ela frequenta minha biblioteca diariamente?” Ele questionou e Elrond seguiu o olhar do conselheiro como se julgasse que fossem cair em outra pessoa qualquer.

“Lady Celebrian?” Ele ofereceu outro questionamento bem pouco útil.

“Sim. Julgava-a o tipo de donzela que passa o dia com panos e bordados sobre o colo?”

Elrond endureceu o rosto.

“Não a julgava tipo algum.” Ele compreendeu enfim a insinuação e o caminho pelo qual o amigo o estava tentando levar. “Mesmo porque nenhum mal vejo nos afazeres de nossas amigas. Se carregamos um belo estandarte, ele não surgiu em nossas mãos do mais completo nada.”

Erestor disfarçou o riso, vendo o anfitrião afastar-se prudentemente agora da janela.

“Sim. Claro. Está também entre as habilidades dela a costura e o bordado antigo. Bem como o domínio de idiomas dos mais diversos e o manejo de vários tipos de armas. Embora, segundo a mãe, por essa última arte ela não se mostrou tão devota quanto são seus pais.”

Elrond voltou-se então para o conselheiro, um tanto cansado daquele discurso. Ele conhecia Erestor mais do que gostaria. Eram amigos de longa data.

“Por que o interesse, Erestor? Está enfim analisando as aptidões de uma pretendente?” Ele buscou esconder os sentimentos mistos que aquelas pequenas revelações sobre Celebrian lhe despertaram. Surpresa... Admiração... Ciúmes...

“Sim. Por certo.” O sorriso sutil de Erestor se alargou como poucas outras vezes, principalmente depois que percebeu o empalidecer esperado surgir no rosto do curador. “Mas não para mim.”

Elrond envergou as sobrancelhas sem compreender e Erestor reaproximou-se, segurando-o pelos ombros.

“Sei que minha função de conselheiro não abrange o conselho que vou lhe dar, mellon-nín.” Ele disse, olhando o outro elfo com seriedade. “Mas se me permite fazê-lo apenas na função de amigo, o que tenho a lhe dizer é que está certo em não julgar ou se interessar por nada que Lady Celebrian seja ou faça.”

“Por quê?” A pergunta escapou do outro elfo com mais rapidez até do que o conselheiro esperava e quase lhe roubou outro riso que teria sido mal interpretado, por isso Erestor se conteve, limitando-se apenas a apertar o ombro que segurava.

“Porque nada poderá tirá-la de seu coração, Elrond. E eu não imagino que exista de fato algo nela que o fizesse desejar fazê-lo, mesmo se pudesse.”

Elrond apertou os lábios. Contendo o ar inconformado. Ter um amigo que o conhecia tão bem não era sempre a melhor das vantagens.

“Meu coração não está aberto, Erestor”.

O conselheiro soltou um suspiro fraco, outro sorriso sutil embelezava-lhe o rosto sereno.

“Eu não disse que estava.” Ele comentou, caminhando até a porta. “Mas ela está dentro dele mesmo assim...” Adicionou, abrindo a porta e passando por ela. Porém, antes de fechá-la, ainda olhou mais uma vez para o amigo que deixaria sozinho com aquelas últimas palavras. “Talvez ela esteja dentro dele porque sempre fora seu lugar... Já pensou nisso?”