E
N T A R D E C E R
“Somente
quando encontramos o amor, é que descobrimos o que nos faltava na vida.”
John
Ruskin
APRESENTAÇÃO
Categoria: Lord of the Rings
Autora:
Sadie Sil
Revisoras:
Alastegiel - Myriara
Gênero:
Romance
Censura:
T
Linha
temporal: Primeiros anos da Terceira Era.
Disclaimer:
Não possuo os personagens, apenas peguei emprestados, devotando-lhes mais amor
do que seria sensato. Agora acho que são um pouco meus. Mas o Professor, com
seu bondoso coração, com certeza não se importará em reparti-los.
Sinopse:
Depois de muito tempo de espera, Elrond e Celebrian encontram a possibilidade
de começarem uma vida a dois.
Comentários:
Esse
texto foi uma proposta para o Desafio de final de ano do TOLKIEN GROUP:
Escrever uma short fic com pelo menos um personagem do professor. Espero que
gostem.
Até para elfos puros, quase dois milhares de anos
era tempo demais.
Era o que pensava o senhor de Valfenda, cujos olhos
estavam fixos na imagem que viam da janela de seu gabinete. Por mais vezes do
que seria sensato, ele deixara-se levar naquele curto caminho de sua cadeira
até aquela janela lateral que dava para o jardim. Desde a chegada de Celeborn e
Galadriel aqueles momentos de fim de tarde se converteram em uma estranha
vigília. Os pássaros começavam a anunciar o anoitecer e ele automaticamente
abandonava seus papéis, independente da urgência que tivessem e se quedava ali,
calado, diante daquela vidraça.
Fazia-o pelo mais inesperado e inexplicável motivo.
Fazia-o apenas porque sabia que ela viria acompanhar
o entardecer.
Na primeira vez que a vira, em meio a uma tumultuada
época de confrontos e perdas, não ousara sequer olhá-la por tempo demais. A
elfa era apenas mais um dos membros da comitiva que a mãe conduzia pelas poucas
terras seguras para reencontrar o marido. Celeborn liderara um exército contra
forças invasoras e o próprio Elrond acabara por levar um contingente em seu
auxílio. Nem assim, contudo, a queda de Eregion pôde ser evitada ou a morte de
um dos mais nobres dos artesãos élficos, Celebrimbor, impedida.
Não. Aquela época não fora propícia para outros
pensamentos que não o posicionamento correto de armas e soldados e o imediato
dia de amanhã... Não. Naqueles dias ele nem se atrevera a pensar em amor.
E eles se foram, a família novamente reunida entre o
restante dos que a seguiam. E Elrond não mais a viu, guardando, no entanto, a
lembrança de um par de olhos claros que, já distantes, ousaram fazer seu brilho
escapar do manto escuro que os guardava e oferecerem-lhe algo além de uma
simples lembrança. Algo que, indisciplinadamente, seu coração insistia em
denominar esperança.
Desde então jamais trocaram palavras além de meros
cumprimentos, nas diferentes, mas raras, ocasiões em que o destino os aproximou
e muito pouco se viram. Por isso quando chegou à Imladris a mensagem de
Celeborn comunicando-o de sua chegada com a família e sua intenção de
permanecer, se possível fosse, por tempo indeterminado, Elrond viu-se novamente
perdido em pensamentos que escaparam de imediato do lugar onde os havia abrigado.
E o que eram apenas conjeturas, dúvidas sobre como
seria o reencontro, transformou-se em uma inegável certeza assim que seus olhos
pousaram, ainda que rapidamente, na figura da donzela de Lórinand, daquela a
quem, em seus pensamentos mais desenfreados, ele gostaria de intitular Senhora
de Imladris, já que senhora de seu coração ela já passara a ser desde a
primeira vez que a vira.
Estavam no início de uma nova Era e, apesar de todos
os pormenores, havia no ar a incontida expectativa de que tempos melhores os
abraçariam. As árvores ganhavam seu mais marcante tom de verde, as flores
custavam a murchar e o sorriso dos habitantes da cidade quase nunca os
abandonava.
Elrond fechou os olhos um instante, enfrentando o
que julgava ser o maior conflito que já vivera em sua vida. Jamais se
apaixonara, jamais se deixara levar. Toda a sua existência fora permeada por
perdas tamanhas que seu coração recusava-se a ceder a qualquer sentimento mais
permanente do que o de proteger ao seu povo, cuidar do que o horizonte lhes reservava,
esperar pelo pior... sempre...
Aqueles pensamentos o perseguiam agora. Há tempos
não questionava mais suas origens, suas escolhas, seu papel na história, mas
diante daquela perspectiva, daquela possibilidade ainda que remota a extremo,
via-se em um impasse do qual nem sabia ao certo como sair.
Havia muitas dúvidas no ar. Dúvidas que o levavam a
querer ouvir aquela voz da razão que sempre fora sua guia e conselheira.
Não. Não. Não. Ela
lhe dizia. Deixe-a seguir seu rumo, não tente atá-la ao seu, mesmo que seja
do desejo dela. Deixe-a tentar buscar a felicidade em outro local que não
aquele território tão duramente marcado, na companhia de outro alguém que não
aquele elfo a quem o destino parecia sempre reservar as mais diversas
provações.
Elrond balançou o rosto, afastando todos aqueles
pensamentos. Aquilo era tolice. Aquilo...
E seus pensamentos enfim foram calados, não pela voz
firme de sua consciência, mas sim pelo descompassado som de seu coração. Seus
olhos agora acompanhavam o oscilar de um vestido esverdeado, o agitar brando de
cabelos dourados. Ela sempre fazia o mesmo caminho, cruzando o jardim, tomando
um mesmo banco e lá ficando até que os serviçais começassem a acender as
lamparinas. Certas vezes alguns se aproximavam para conversar com ela, certas
vezes a mãe mesmo a acompanhava, mas na maioria das vezes, como naquele dia,
ela ficava sozinha, a contemplar os últimos raios e as primeiras estrelas.
As primeiras estrelas...
“Estrela... Estrela minha.” Ele se viu brincando com
aquelas palavras como se fosse um elfinho aprendendo o significado de um idioma
estrangeiro. E por um instante a elfa ergueu os olhos como se parecesse tê-lo
ouvido e só não o encontrou a observá-la porque ele fora bastante rápido.
&&&
O tempo passou e Elrond conseguiu, pouco a pouco,
voltar a ocupar sua mente com o que estava ao seu alcance e à sua guarda. E a
imagem da bela filha do casal da antiga Eregion conseguia apenas tomar-lhe a
mente quando o curador estava por demais distraído de seus afazeres. Ocupavam a
mesma mesa no jantar, mas Elrond sequer olhava para ela além do necessário para
o breve cumprimento. A princípio ele chegou a sentir o olhar dela buscar pelo
dele algumas vezes, mas por fim a frieza de sua atuação acabou por ser
espelhada pela hóspede também.
Aquilo era loucura. Melhor que terminasse assim, sem
ao menos ter começado. Afinal mal haviam conversado nesses anos todos, podia
estar nutrindo, em seu coração solitário, uma ilusão que não traria bem algum a
nenhum deles.
&&&
Cruzava agora apressadamente o pátio. Uma patrulha
acidentara-se na floresta e ele havia ido averiguar a gravidade dos ferimentos
do capitão. Uma vez satisfeito com a compreensão dos fatos e com a certeza de
recuperação de seus soldados, ele voltava a passo rápido para dentro da casa maior.
Estava ainda recuperando-se da sensação desagradável que o incidente lhe
trouxera, havia tão poucos momentos de paz que chegara a julgar algo pior
quando ouvira a notícia.
Enquanto caminhava a seu rumo, porém, seus olhos se
deslocaram, seguindo a imagem de uma pequena lebre que cruzou arriscadamente o
pátio, indo desaparecer em um punhado de emaranhado verde que se desenvolvera
desafiador ao lado de um dos bancos principais do jardim. Ele até sorriria da
manobra rápida do animal, se não encontrasse sentada ali, como continuava a
fazer todos os dias, alguém que jamais perderia seu brilho, por mais apagada
que estivessem as estrelas pelo céu carregado acima.
“Lorde Elrond.” A filha de Galadriel moveu a cabeça
em um cumprimento formal e Elrond estagnou completamente o passo, vendo-se em
um impasse diplomático. Não podia simplesmente continuar sem ao menos dar à
hóspede um pouco de atenção.
Sim. Era seu dever como bom anfitrião. Dever esse
que, pela primeira vez, proporcionou-lhe uma sensação de frio repentino em
plena primavera.
E algo além disso...
“Milady.” Elrond tranquilizou ao menos os traços e
tremores de seu rosto, haja vista que o enlouquecido coração já deixara de
obedecê-lo há tempos. “Apreciando o jardim?” Ele indagou, sem se aproximar.
O rosto da jovem elfa iluminou-se de uma forma que
ele ainda não havia visto, como se estivesse mesmo satisfeita com o encontro.
Poderia de fato estar? Poderia ele de fato supor isso? Seria correto?
“O senhor tem aqui o mais belo jardim que já vi.”
Ela disse, erguendo-se e aproximando-se devagar. “Os jardineiros me disseram
que o senhor recebe toda a espécie de flores e ornamentos das mais diversas
regiões da Terra-média.”
Elrond respirou fundo, colocando um sorriso sutil
nos lábios.
“Sou um curador, milady.” Ele procurou enfraquecer
aquele traço de virtude que parecia ser de extrema importância para a elfa.
Embora amasse de fato aquele jardim colorido, não queria vê-la iludida por uma
interpretação exagerada de seu afeto pelas obras de Yavanna.
A elfa soltou os ombros levemente, mas seus olhos
azuis não deixaram de observá-lo. Elrond permitiu-se aquele contato o qual
vinha evitando durante tanto tempo. Agora percebia que precisava dele, que
precisava saber como se sentiria, que precisava apagar as últimas chamas de ilusão
e sentir o que a realidade colocaria no lugar delas.
Mas então, Celebrian lhe sorriu e ele sentiu pela
primeira vez que a realidade poderia ter o mesmo sabor das melhores ilusões.
“Há flores diversas de onde viemos.” Ela lhe disse
com moderado entusiasmo. “Eu as estudei fervorosamente e conheço-as bem. Existe
alguma pela qual o senhor esteja buscando para que seu jardim fique completo?”
Elrond continuou olhando para a elfa, como se apenas
a voz dela houvesse embalado seu espírito, só agora percebia que a sensação
desaparecera, que seu coração voltava ao compasso apropriado, trazendo-lhe de
volta a sensação de segurança que ele julgava perdida e pela qual vinha
ansiando desde que reencontrara aquela elfa novamente. Apenas algo de extrema
importância não mudara...
“Creio que meu jardim nunca esteve mais belo...” Ele
se viu dizendo e nem se apercebeu que o momento necessário a dedicar-se a olhar
para sua visitante durante aquela resposta havia passado. Ele continuou
olhando-a mesmo assim, até que a percebeu enrubescer e baixar os olhos. Só
então notou sua atitude e se alguma vez desconcertara-se antes não se lembrava
de ter sido de forma pior do que aquela. “Peço desculpas, milady.” Ele disse,
controlando o tom de embaraço de sua voz. “Com sua licença.”
E sem esperar qualquer consentimento o lorde de
Imladris começou a se afastar, já ouvindo sua consciência ralhar-lhe com os
piores adjetivos. Tantos anos de experiência e ele percebia que definitivamente
não sabia como lidar com uma situação como aquela.
&&&
E daquele dia em diante lá estava ele novamente em
frente daquela janela, naquele mesmo instante do dia.
“Então,” Dizia Erestor que ocupava o mesmo gabinete
naquela tarde, mostrando ao amigo alguns pergaminhos que haviam chegado e cuja
caligrafia lhe parecia conhecida, mesmo num idioma já em total desuso. “Penso
que o melhor seria darmos fim nesse lixo todo, talvez as forjas estejam
precisando de matéria prima para as fornalhas. O que acha?”
Elrond apenas assentiu displicente, os olhos presos
no que nos últimos dias estava lhe importando mais do que todas as bibliotecas
daquela terra ou de qualquer outra. Custaram ainda alguns instantes de prudente
silêncio do conselheiro para que a própria consciência do curador repetisse
devagar a frase que acabara de ouvir. Quando Elrond virou-se intrigado para o
amigo ainda sentado diante dos papéis antigos, encontrou-o com um olhar que não
o agradou.
“O que disse que faria com o material, Erestor?” Ele
indagou mesmo assim, mas o sorriso e a nova provocação e brincadeira que
aguardava do conselheiro foram substituídas por um semblante bastante
preocupado. Erestor ergueu-se então se aproximando também da janela e
colocando-se ao lado do amigo.
“Sabia que ela frequenta minha biblioteca
diariamente?” Ele questionou e Elrond seguiu o olhar do conselheiro como se
julgasse que fossem cair em outra pessoa qualquer.
“Lady Celebrian?” Ele ofereceu outro questionamento
bem pouco útil.
“Sim. Julgava-a o tipo de donzela que passa o dia
com panos e bordados sobre o colo?”
Elrond endureceu o rosto.
“Não a julgava tipo algum.” Ele compreendeu enfim a
insinuação e o caminho pelo qual o amigo o estava tentando levar. “Mesmo porque
nenhum mal vejo nos afazeres de nossas amigas. Se carregamos um belo
estandarte, ele não surgiu em nossas mãos do mais completo nada.”
Erestor disfarçou o riso, vendo o anfitrião
afastar-se prudentemente agora da janela.
“Sim. Claro. Está também entre as habilidades dela a
costura e o bordado antigo. Bem como o domínio de idiomas dos mais diversos e o
manejo de vários tipos de armas. Embora, segundo a mãe, por essa última arte
ela não se mostrou tão devota quanto são seus pais.”
Elrond voltou-se então para o conselheiro, um tanto
cansado daquele discurso. Ele conhecia Erestor mais do que gostaria. Eram
amigos de longa data.
“Por que o interesse, Erestor? Está enfim analisando
as aptidões de uma pretendente?” Ele buscou esconder os sentimentos mistos que
aquelas pequenas revelações sobre Celebrian lhe despertaram. Surpresa... Admiração... Ciúmes...
“Sim. Por certo.” O sorriso sutil de Erestor se
alargou como poucas outras vezes, principalmente depois que percebeu o
empalidecer esperado surgir no rosto do curador. “Mas não para mim.”
Elrond envergou as sobrancelhas sem compreender e
Erestor reaproximou-se, segurando-o pelos ombros.
“Sei que minha função de conselheiro não abrange o
conselho que vou lhe dar, mellon-nín.” Ele disse, olhando o outro elfo
com seriedade. “Mas se me permite fazê-lo apenas na função de amigo, o que
tenho a lhe dizer é que está certo em não julgar ou se interessar por nada que
Lady Celebrian seja ou faça.”
“Por quê?” A pergunta escapou do outro elfo com mais
rapidez até do que o conselheiro esperava e quase lhe roubou outro riso que
teria sido mal interpretado, por isso Erestor se conteve, limitando-se apenas a
apertar o ombro que segurava.
“Porque nada poderá tirá-la de seu coração, Elrond.
E eu não imagino que exista de fato algo nela que o fizesse desejar fazê-lo,
mesmo se pudesse.”
Elrond apertou os lábios. Contendo o ar
inconformado. Ter um amigo que o conhecia tão bem não era sempre a melhor das
vantagens.
“Meu coração não está aberto, Erestor”.
O conselheiro soltou um suspiro fraco, outro sorriso
sutil embelezava-lhe o rosto sereno.
“Eu não disse que estava.” Ele comentou, caminhando
até a porta. “Mas ela está dentro dele mesmo assim...” Adicionou, abrindo a
porta e passando por ela. Porém, antes de fechá-la, ainda olhou mais uma vez
para o amigo que deixaria sozinho com aquelas últimas palavras. “Talvez ela
esteja dentro dele porque sempre fora seu lugar... Já pensou nisso?”

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