quinta-feira, 19 de janeiro de 2012


E N T A R D E C E R


Somente quando encontramos o amor, é que descobrimos o que nos faltava na vida.”
                                                             John Ruskin



APRESENTAÇÃO

Categoria: Lord of the Rings
Autora: Sadie Sil
Revisoras: Alastegiel - Myriara
Gênero: Romance
Censura: T
Linha temporal: Primeiros anos da Terceira Era.
Disclaimer: Não possuo os personagens, apenas peguei emprestados, devotando-lhes mais amor do que seria sensato. Agora acho que são um pouco meus. Mas o Professor, com seu bondoso coração, com certeza não se importará em reparti-los.
Sinopse: Depois de muito tempo de espera, Elrond e Celebrian encontram a possibilidade de começarem uma vida a dois.
Comentários: Esse texto foi uma proposta para o Desafio de final de ano do TOLKIEN GROUP: Escrever uma short fic com pelo menos um personagem do professor. Espero que gostem.



Até para elfos puros, quase dois milhares de anos era tempo demais.

Era o que pensava o senhor de Valfenda, cujos olhos estavam fixos na imagem que viam da janela de seu gabinete. Por mais vezes do que seria sensato, ele deixara-se levar naquele curto caminho de sua cadeira até aquela janela lateral que dava para o jardim. Desde a chegada de Celeborn e Galadriel aqueles momentos de fim de tarde se converteram em uma estranha vigília. Os pássaros começavam a anunciar o anoitecer e ele automaticamente abandonava seus papéis, independente da urgência que tivessem e se quedava ali, calado, diante daquela vidraça.

Fazia-o pelo mais inesperado e inexplicável motivo.

Fazia-o apenas porque sabia que ela viria acompanhar o entardecer.

Na primeira vez que a vira, em meio a uma tumultuada época de confrontos e perdas, não ousara sequer olhá-la por tempo demais. A elfa era apenas mais um dos membros da comitiva que a mãe conduzia pelas poucas terras seguras para reencontrar o marido. Celeborn liderara um exército contra forças invasoras e o próprio Elrond acabara por levar um contingente em seu auxílio. Nem assim, contudo, a queda de Eregion pôde ser evitada ou a morte de um dos mais nobres dos artesãos élficos, Celebrimbor, impedida.

Não. Aquela época não fora propícia para outros pensamentos que não o posicionamento correto de armas e soldados e o imediato dia de amanhã... Não. Naqueles dias ele nem se atrevera a pensar em amor.

E eles se foram, a família novamente reunida entre o restante dos que a seguiam. E Elrond não mais a viu, guardando, no entanto, a lembrança de um par de olhos claros que, já distantes, ousaram fazer seu brilho escapar do manto escuro que os guardava e oferecerem-lhe algo além de uma simples lembrança. Algo que, indisciplinadamente, seu coração insistia em denominar esperança.

Desde então jamais trocaram palavras além de meros cumprimentos, nas diferentes, mas raras, ocasiões em que o destino os aproximou e muito pouco se viram. Por isso quando chegou à Imladris a mensagem de Celeborn comunicando-o de sua chegada com a família e sua intenção de permanecer, se possível fosse, por tempo indeterminado, Elrond viu-se novamente perdido em pensamentos que escaparam de imediato do lugar onde os havia abrigado.

E o que eram apenas conjeturas, dúvidas sobre como seria o reencontro, transformou-se em uma inegável certeza assim que seus olhos pousaram, ainda que rapidamente, na figura da donzela de Lórinand, daquela a quem, em seus pensamentos mais desenfreados, ele gostaria de intitular Senhora de Imladris, já que senhora de seu coração ela já passara a ser desde a primeira vez que a vira.

Estavam no início de uma nova Era e, apesar de todos os pormenores, havia no ar a incontida expectativa de que tempos melhores os abraçariam. As árvores ganhavam seu mais marcante tom de verde, as flores custavam a murchar e o sorriso dos habitantes da cidade quase nunca os abandonava.

Elrond fechou os olhos um instante, enfrentando o que julgava ser o maior conflito que já vivera em sua vida. Jamais se apaixonara, jamais se deixara levar. Toda a sua existência fora permeada por perdas tamanhas que seu coração recusava-se a ceder a qualquer sentimento mais permanente do que o de proteger ao seu povo, cuidar do que o horizonte lhes reservava, esperar pelo pior... sempre...

Aqueles pensamentos o perseguiam agora. Há tempos não questionava mais suas origens, suas escolhas, seu papel na história, mas diante daquela perspectiva, daquela possibilidade ainda que remota a extremo, via-se em um impasse do qual nem sabia ao certo como sair.

Havia muitas dúvidas no ar. Dúvidas que o levavam a querer ouvir aquela voz da razão que sempre fora sua guia e conselheira.

Não. Não. Não. Ela lhe dizia. Deixe-a seguir seu rumo, não tente atá-la ao seu, mesmo que seja do desejo dela. Deixe-a tentar buscar a felicidade em outro local que não aquele território tão duramente marcado, na companhia de outro alguém que não aquele elfo a quem o destino parecia sempre reservar as mais diversas provações.

Elrond balançou o rosto, afastando todos aqueles pensamentos. Aquilo era tolice. Aquilo...
E seus pensamentos enfim foram calados, não pela voz firme de sua consciência, mas sim pelo descompassado som de seu coração. Seus olhos agora acompanhavam o oscilar de um vestido esverdeado, o agitar brando de cabelos dourados. Ela sempre fazia o mesmo caminho, cruzando o jardim, tomando um mesmo banco e lá ficando até que os serviçais começassem a acender as lamparinas. Certas vezes alguns se aproximavam para conversar com ela, certas vezes a mãe mesmo a acompanhava, mas na maioria das vezes, como naquele dia, ela ficava sozinha, a contemplar os últimos raios e as primeiras estrelas.

As primeiras estrelas...

“Estrela... Estrela minha.” Ele se viu brincando com aquelas palavras como se fosse um elfinho aprendendo o significado de um idioma estrangeiro. E por um instante a elfa ergueu os olhos como se parecesse tê-lo ouvido e só não o encontrou a observá-la porque ele fora bastante rápido.

&&&

O tempo passou e Elrond conseguiu, pouco a pouco, voltar a ocupar sua mente com o que estava ao seu alcance e à sua guarda. E a imagem da bela filha do casal da antiga Eregion conseguia apenas tomar-lhe a mente quando o curador estava por demais distraído de seus afazeres. Ocupavam a mesma mesa no jantar, mas Elrond sequer olhava para ela além do necessário para o breve cumprimento. A princípio ele chegou a sentir o olhar dela buscar pelo dele algumas vezes, mas por fim a frieza de sua atuação acabou por ser espelhada pela hóspede também.

Aquilo era loucura. Melhor que terminasse assim, sem ao menos ter começado. Afinal mal haviam conversado nesses anos todos, podia estar nutrindo, em seu coração solitário, uma ilusão que não traria bem algum a nenhum deles.

&&&

Cruzava agora apressadamente o pátio. Uma patrulha acidentara-se na floresta e ele havia ido averiguar a gravidade dos ferimentos do capitão. Uma vez satisfeito com a compreensão dos fatos e com a certeza de recuperação de seus soldados, ele voltava a passo rápido para dentro da casa maior. Estava ainda recuperando-se da sensação desagradável que o incidente lhe trouxera, havia tão poucos momentos de paz que chegara a julgar algo pior quando ouvira a notícia.

Enquanto caminhava a seu rumo, porém, seus olhos se deslocaram, seguindo a imagem de uma pequena lebre que cruzou arriscadamente o pátio, indo desaparecer em um punhado de emaranhado verde que se desenvolvera desafiador ao lado de um dos bancos principais do jardim. Ele até sorriria da manobra rápida do animal, se não encontrasse sentada ali, como continuava a fazer todos os dias, alguém que jamais perderia seu brilho, por mais apagada que estivessem as estrelas pelo céu carregado acima.

“Lorde Elrond.” A filha de Galadriel moveu a cabeça em um cumprimento formal e Elrond estagnou completamente o passo, vendo-se em um impasse diplomático. Não podia simplesmente continuar sem ao menos dar à hóspede um pouco de atenção.

Sim. Era seu dever como bom anfitrião. Dever esse que, pela primeira vez, proporcionou-lhe uma sensação de frio repentino em plena primavera.

E algo além disso...

“Milady.” Elrond tranquilizou ao menos os traços e tremores de seu rosto, haja vista que o enlouquecido coração já deixara de obedecê-lo há tempos. “Apreciando o jardim?” Ele indagou, sem se aproximar.

O rosto da jovem elfa iluminou-se de uma forma que ele ainda não havia visto, como se estivesse mesmo satisfeita com o encontro. Poderia de fato estar? Poderia ele de fato supor isso? Seria correto?

“O senhor tem aqui o mais belo jardim que já vi.” Ela disse, erguendo-se e aproximando-se devagar. “Os jardineiros me disseram que o senhor recebe toda a espécie de flores e ornamentos das mais diversas regiões da Terra-média.”

Elrond respirou fundo, colocando um sorriso sutil nos lábios.

“Sou um curador, milady.” Ele procurou enfraquecer aquele traço de virtude que parecia ser de extrema importância para a elfa. Embora amasse de fato aquele jardim colorido, não queria vê-la iludida por uma interpretação exagerada de seu afeto pelas obras de Yavanna.

A elfa soltou os ombros levemente, mas seus olhos azuis não deixaram de observá-lo. Elrond permitiu-se aquele contato o qual vinha evitando durante tanto tempo. Agora percebia que precisava dele, que precisava saber como se sentiria, que precisava apagar as últimas chamas de ilusão e sentir o que a realidade colocaria no lugar delas.

Mas então, Celebrian lhe sorriu e ele sentiu pela primeira vez que a realidade poderia ter o mesmo sabor das melhores ilusões.

“Há flores diversas de onde viemos.” Ela lhe disse com moderado entusiasmo. “Eu as estudei fervorosamente e conheço-as bem. Existe alguma pela qual o senhor esteja buscando para que seu jardim fique completo?”

Elrond continuou olhando para a elfa, como se apenas a voz dela houvesse embalado seu espírito, só agora percebia que a sensação desaparecera, que seu coração voltava ao compasso apropriado, trazendo-lhe de volta a sensação de segurança que ele julgava perdida e pela qual vinha ansiando desde que reencontrara aquela elfa novamente. Apenas algo de extrema importância não mudara...

“Creio que meu jardim nunca esteve mais belo...” Ele se viu dizendo e nem se apercebeu que o momento necessário a dedicar-se a olhar para sua visitante durante aquela resposta havia passado. Ele continuou olhando-a mesmo assim, até que a percebeu enrubescer e baixar os olhos. Só então notou sua atitude e se alguma vez desconcertara-se antes não se lembrava de ter sido de forma pior do que aquela. “Peço desculpas, milady.” Ele disse, controlando o tom de embaraço de sua voz. “Com sua licença.”

E sem esperar qualquer consentimento o lorde de Imladris começou a se afastar, já ouvindo sua consciência ralhar-lhe com os piores adjetivos. Tantos anos de experiência e ele percebia que definitivamente não sabia como lidar com uma situação como aquela.

&&&

E daquele dia em diante lá estava ele novamente em frente daquela janela, naquele mesmo instante do dia.
“Então,” Dizia Erestor que ocupava o mesmo gabinete naquela tarde, mostrando ao amigo alguns pergaminhos que haviam chegado e cuja caligrafia lhe parecia conhecida, mesmo num idioma já em total desuso. “Penso que o melhor seria darmos fim nesse lixo todo, talvez as forjas estejam precisando de matéria prima para as fornalhas. O que acha?”

Elrond apenas assentiu displicente, os olhos presos no que nos últimos dias estava lhe importando mais do que todas as bibliotecas daquela terra ou de qualquer outra. Custaram ainda alguns instantes de prudente silêncio do conselheiro para que a própria consciência do curador repetisse devagar a frase que acabara de ouvir. Quando Elrond virou-se intrigado para o amigo ainda sentado diante dos papéis antigos, encontrou-o com um olhar que não o agradou.

“O que disse que faria com o material, Erestor?” Ele indagou mesmo assim, mas o sorriso e a nova provocação e brincadeira que aguardava do conselheiro foram substituídas por um semblante bastante preocupado. Erestor ergueu-se então se aproximando também da janela e colocando-se ao lado do amigo.
“Sabia que ela frequenta minha biblioteca diariamente?” Ele questionou e Elrond seguiu o olhar do conselheiro como se julgasse que fossem cair em outra pessoa qualquer.

“Lady Celebrian?” Ele ofereceu outro questionamento bem pouco útil.

“Sim. Julgava-a o tipo de donzela que passa o dia com panos e bordados sobre o colo?”

Elrond endureceu o rosto.

“Não a julgava tipo algum.” Ele compreendeu enfim a insinuação e o caminho pelo qual o amigo o estava tentando levar. “Mesmo porque nenhum mal vejo nos afazeres de nossas amigas. Se carregamos um belo estandarte, ele não surgiu em nossas mãos do mais completo nada.”

Erestor disfarçou o riso, vendo o anfitrião afastar-se prudentemente agora da janela.

“Sim. Claro. Está também entre as habilidades dela a costura e o bordado antigo. Bem como o domínio de idiomas dos mais diversos e o manejo de vários tipos de armas. Embora, segundo a mãe, por essa última arte ela não se mostrou tão devota quanto são seus pais.”

Elrond voltou-se então para o conselheiro, um tanto cansado daquele discurso. Ele conhecia Erestor mais do que gostaria. Eram amigos de longa data.

“Por que o interesse, Erestor? Está enfim analisando as aptidões de uma pretendente?” Ele buscou esconder os sentimentos mistos que aquelas pequenas revelações sobre Celebrian lhe despertaram. Surpresa... Admiração... Ciúmes...

“Sim. Por certo.” O sorriso sutil de Erestor se alargou como poucas outras vezes, principalmente depois que percebeu o empalidecer esperado surgir no rosto do curador. “Mas não para mim.”

Elrond envergou as sobrancelhas sem compreender e Erestor reaproximou-se, segurando-o pelos ombros.

“Sei que minha função de conselheiro não abrange o conselho que vou lhe dar, mellon-nín.” Ele disse, olhando o outro elfo com seriedade. “Mas se me permite fazê-lo apenas na função de amigo, o que tenho a lhe dizer é que está certo em não julgar ou se interessar por nada que Lady Celebrian seja ou faça.”

“Por quê?” A pergunta escapou do outro elfo com mais rapidez até do que o conselheiro esperava e quase lhe roubou outro riso que teria sido mal interpretado, por isso Erestor se conteve, limitando-se apenas a apertar o ombro que segurava.

“Porque nada poderá tirá-la de seu coração, Elrond. E eu não imagino que exista de fato algo nela que o fizesse desejar fazê-lo, mesmo se pudesse.”

Elrond apertou os lábios. Contendo o ar inconformado. Ter um amigo que o conhecia tão bem não era sempre a melhor das vantagens.

“Meu coração não está aberto, Erestor”.

O conselheiro soltou um suspiro fraco, outro sorriso sutil embelezava-lhe o rosto sereno.

“Eu não disse que estava.” Ele comentou, caminhando até a porta. “Mas ela está dentro dele mesmo assim...” Adicionou, abrindo a porta e passando por ela. Porém, antes de fechá-la, ainda olhou mais uma vez para o amigo que deixaria sozinho com aquelas últimas palavras. “Talvez ela esteja dentro dele porque sempre fora seu lugar... Já pensou nisso?”

Nenhum comentário:

Postar um comentário